sábado, 2 de junho de 2012

Carta Não Entregue


Eu era e agia de uma certa forma, evitando todos os sentimentos, evitando todas as decepções e frustações, evitando todos os sofrimentos e todas as dores! Eu era fechada, muito fechada... Tinha um muro, um muro difícil de derrubar á minha volta e eu sempre colocava, revestia sempre o meu muro de armaduras, armaduras impenetráveis... São poucos que tentam ultrapassá-la, os que tentam quase sempre não conseguem, logo desistem; o restante, nem tenta, acha que é trabalhoso tentar desarmar alguém que não quer ou não admite ser desarmado, vai se embora. Eu estou presa, em torno de mim, há esse muro, esse muro que me protege e evita que qualquer coisa ruim chegue até mim ou que qualquer coisa me afete, é um ótimo escudo! Eu estava firme, forte e convicta. Mas, eu não estava feliz. Eu fazia de tudo para me proteger e conseguia, mas com isso, eu perdia os sentimentos, eu não sentia, me tornei indiferente e o não sentir é o que me fazia infeliz! Eu sentia falta de algo, pois bem no fundo, eu queria que alguém tentasse e fosse além, tentasse até o fim ultrapassar a minha resistência, vencer a minha armadura e derrubar o meu muro! Pois então, eis que aparece alguém, esse alguém vai lá e faz isso... Talvez você não tenha tentado de todas as formas possíveis, mas eu mesma, cansada de tanta solidão e isolada pelo meu muro, resolvi abrir uma porta, resolvi deixar você entrar... Assim, de repente e tão facilmente, eu deixei você entrar! Eu deixei você entrar, PORQUE? O meu muro não era impenetrável e o escudo como uma armadura de ferro? E agora? Agora o meu muro, de forma tão rápida e sem dificuldades, meu muro caiu! Uma vez que você abre a porta e alguém ultrapassa pelo muro, ele vai desmoronando, esmorecendo, desabando até o chão... Meu muro está no chão e eu estou aqui, eu estou exposta a todos, todos estão me olhando e me vendo, estão me enxergando, todos! Eu estou vulnerável, vulnerável demais, demais... Se antes ninguém me via, não sabia da minha existência e principalmente, dos meus sentimentos... Agora todos veem, todos percebem e todos sabem! Eu estou vulnerável, principalmente pra você. Você me olha e sabe todos os meus sentimentos, sabe que eu estou entregue! Isso é um perigo, afinal, eu não sei o que você fará com isso, com os meus sentimentos... Você pode fazer tudo ou fazer nada, você pode fazer o bem ou pode fazer o mal - pode me amar ou me ignorar – você pode fazer qualquer coisa, o que quiser! Se entregar é arriscado, por tudo que eu já falei, trás a vulnerabilidade completa... A vulnerabilidade é isso, estar aberta e exposta – eu estou nua – despida de todas as proteções, armaduras e muros. E agora? Agora que eu estou completamente nua, eu estou com medo... Com muitos medos e por vários motivos e possibilidades, insegura porque eu posso ser afetada – só o fato de eu não ter o muro me protegendo, já me afeta o bastante – e se não bastasse, há mais coisas ainda que podem me afetar! Fico insegura do que você sente e até do que eu sinto – se deveria realmente sentir aquilo e dar tudo de mim mesmo – insegura, pois sei que posso ser acertada por um golpe certeiro – uma flechada de coisas ruins – e se isso acontecer, eu seria acertada, sem dúvidas.. Não haveria como fugir, correr ou tentar se esconder... Simplesmente, eu seria acertada e cairia ao chão – entre a morte e o desgosto – e ficaria deitada, deitada por muito, muito tempo. Talvez eu veja as coisas por um lado mais pessimista do que por um lado mais otimista, mas sabe, eu fiquei por muito tempo – ou estive até agora, durante toda a minha vida, praticamente – rodeada pelo meu muro de proteção, agora que me vejo sem o muro a minha frente e despida de todos os escudos e armaduras, eu me torno frágil, muito, muito, mas muito frágil, tão frágil que qualquer coisa que me acerte pode me derrubar. Eu não sei como agir – porque o muro sempre fez as coisas por mim, sempre me protegeu e agiu por mim – agora, eu não sei como lidar com isso, eu não sei o que devo ou não devo fazer, o que é melhor ou pior... É como se o muro tivesse ficado há muito tempo na minha frente, tampando o sol - eu nunca tinha visto o sol e o quão brilhante e bonito ele era – agora que o muro caiu, eu enxergo aquela luz e não a reconheço, eu tenho medo pois não sei o que você pode fazer comigo, eu não consigo enxergar pois eu não consigo abrir os olhos – pois se eu abrir a luz ofuscará minha visão – no mínimo, eu devo estar precisando de um óculos! Os óculos pode me ajudar, pelo menos de início, até que eu aprenda a lidar com o sol e a sua luz forte, até eu me acostumar com a claridade – eu sempre estive na escuridão, encarar a luz não é fácil – e depois, quem sabe, eu possa tirar o óculos e ver o sol, sem que este ofusque minha visão. E agora? O sol é você! Onde encontrarei óculos que me ajudem a ficar perto de você? Talvez eu não use óculos, não porque não tenha encontrado, mas porque não procurei, fui diretamente até o sol – você – e o encarei, me mostrei, me expus, me despi frente ao sol para que você me visse, todas as minhas partes – do meu corpo até a minha alma – mesmo correndo o risco de me queimar, mesmo correndo o risco de arder, mesmo correndo o risco de ficar cega pela sua luz.. Corri contra todas as possibilidades ruins e fui até o além, cheguei até o sol e o encarei... Continuo o encarando até hoje, converso com você – as vezes, eu não aguento a luz e tapo os olhos, só um pouquinho, para ser forte o bastante e para poder ficar um pouco mais ao seu lado – e por vezes, também brigo com o sol, eu me confronto com você – pois eu quero estar sempre ao seu lado e olhando para você, sempre perto de você, mas as vezes, a sua luz e tão forte que me afasta, por isso, eu entro em conflito com você! Eu corri, corri, corri até chegar além, até chegar até o sol... Fui lutando contra todos os meus medos e demônios, fui tentando vencer só para chegar até o sol – mas, os meus medos e os meus demônios, vez ou outra, aparecem e me confrontam e tomam conta de mim, eles me domam e comandam – as vezes, acho que corro muito para chegar até o sol, você está longe e dá um baita cansaço – haja paixão pela sua luz! – eu corro, sempre corro, muitas vezes, o sol se põe antes de eu chegar – e fico triste, pois corri tanto e o sol nem se importou com o quanto de energia gastei para chegar até ele e se pôs, sem antes me mostrar a sua luz, por pouco tempo que fosse! As vezes, quando estou sozinha e desacompanhada do sol – normalmente, uma luz de outra cor toma conta de mim, uma luz um pouco mais escura, quase que uma nuvem negra, antes essa nuvem era minha companheira, hoje em dia, é passageira – essa luz negra fica falando em minha cabeça contra o sol ou até mesmo contra meus sentimentos e atitudes – eu me doô demais, me entrego demais, eu corro atrás demais, eu demonstro demais, eu quero demais, eu sinto demais – e eu respondo que sim: eu não sei querer pela metade, me entregar pela metade, correr pela metade, demonstrar pela metade, sentir pela metade! Eu sou assim, eu exagero, peco em excesso... Não consigo ser um meio termo, eu vou até o fim... para além das profundezas e com toda intensidade possível! A nuvem negra ora se aquieta, ora me questiona. As vezes, ela vai e fica um tempo longe, mas, depois volta e me atormenta... O problema talvez não seja a nuvem negra – é claro que é, ela que trás muitos dos sentimentos ruins que eu sinto – mas, um outro problema é que também, depois de ter derrubado o muro e saído da escuridão, eu fiquei dependente da luz – me apaixonei e me viciei na luz – eu preciso da luz do sol! Há... luz, você me faz tão bem, coloca um sorriso em meu rosto, embora também já tenha me feito arder – digo, chorar, mesmo sem querer – você, luz... fez meus sentimentos se tornarem mais claros e principalmente, mais coloridos e vivos... luz, as vezes, quando estou frente a ti, fico sem palavras – quero expressar e nada consigo dizer, palavras não encontro – e então, apenas te contemplo em toda sua claridade... luz, e quando estou longe de ti, simplesmente, meu coração bate mais forte, mais acelerado, parece que a ausência da sua luz me faz mal e até sinto que não consigo respirar... luz, você me modificou com sua claridade que refletiu em mim e eu me tornei menos obscura, menos pesada e muito mais leve. Eu não me arrependo, eu não me arrependo de ter corrido ate você, luz... Eu precisava derrubar meu muro e minhas armaduras, precisava sentir e agora eu sinto – embora sentir seja arriscado, e necessário -  mais do que nunca, me sinto imensamente feliz, pela corrida até a luz, por ter encontrado a luz e por todas as vezes em que vejo a luz do sol.  O meu sentimento para com a luz é tão grande, que deve ser isso, que afasta aquela nuvem negra e que reconcilia toda briga. É aquilo que sempre dizem, não é? Enquanto correr atrás de ti e brigar contigo, luz... eu ainda me importo com você, preocupa-se se me silenciar e não procurar mais ver a sua claridade! Por isso, tenha paciência comigo, luz... As vezes fico cega pela tua luz que me causa um sentimento tão grande e se expande pra além de mim, todos os meus medos e inseguranças aparecem, fico vulnerável e mais frágil ainda, me confronto contigo para que percebas que quero te ver e te sentir, também quero que sintas por mim. Tenha paciência comigo, luz... Porque sempre correrei para te ver antes que o sol se vá embora, nunca te deixarei partir sem que antes possa me dar um pouco da sua luz, sempre estarei lá... te esperando para poder te ver, para poder te contar os meus segredos sobre o mar e para ouvir os seus sussurros aos meus ouvidos por meio dos teus raios solares, para poder te acariciar com o meu olhar e para que me acaricies com tua luz, sempre estarei ali por ti e para ti...

Minha luz, meu sol...

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