quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Deus está morto?

“Deus está morto” – decretou Friedrich Wilhelm Nietzsche que nasceu em uma família luterana, seus dois avós eram pastores protestantes e o próprio Nietzsche pensou em seguir a carreira de pastor.

Nietzsche é lembrado e citado por ateus por está frase marcante, onde algumas pessoas interpretam como a morte física de Deus ou recorrem á morte de Jesus Cristo como referência. Ao qual é uma interpretação errônea, embora válida, obviamente. Não sei se a maioria das pessoas pesquisa antes de citar ou dizer que Nietzsche era um dos maiores ateus existentes, digo isso justamente por causa da pequena citação de uma parte da bibliografia que fiz dele ali em cima.

Nietzsche veio de uma família religiosa com parentes atuando em carreiras religiosas, ou seja, Nietzsche já foi um tipo de pessoa religiosa algum dia, mesmo que obviamente fosse por influência de seus familiares e não por uma escolha própria, afinal, todas as crianças são influenciadas e têm crenças religiosas colocadas em suas pequenas cabeças pelos seus pais, enquanto não podem pensar apenas acreditam no que lhe é dito. Como é citado lá em cima, Nietzsche poderia não ter sido um grande filosófo, mas, apenas um pastor protestante; se não fosse o fato de na sua adolescência começar a rejeitar a idéia da fé e ter começado a pesquisar e estudar a filosofia, ou seja, foi a filosofia que afastou o pequeno Nietzsche de sua “vocação religiosa” e o fez perceber que sua verdadeira vocação era para a filosofia e o pensar.

Nietzsche veio para desmascarar e quebrar dogmas católicos e crenças religiosas em geral, mas ele não se coloca como o “assassino de Deus” e diz que “todos nós o matamos”, ou seja, esse foi um acontecimento cultural. Como nós matamos Deus? Teríamos matado ele a partir da descoberta de que “ele não existe, mas foi criado por nós” e a partir daí, fica fácil simplesmente matarmos este se fomos nós mesmos os seus criadores. E porque o criamos? No início da vida, havia certos acontecimentos que precisávamos colocar uma explicação do por que aconteciam, dar um sentido ou um motivo e na falta da tecnologia ou conhecimento para buscar explicações científicas, assim Deus foi criado para explicar os acontecimentos que fugiam a materialidade da vida, os chamados “acontecimentos sobrenaturais” que eram inexplicáveis e fonte de todo o mistério.
E é exatamente pelo fato de que os nossos ancestrais criaram Deus para explicar os seus problemas que Karl Marx dizia a famosa frase: “A religião é o ópio do povo”, ou seja, a religião servia como a explicação dos fenômenos sobrenaturais e agia de forma a hipnotizar os cidadãos para que acreditassem naquilo e ficassem cegos para a realidade, ou seja, a religião provocava um adormecimento do povo.

Sigmund Freud também cita essa frase e acrescenta: “A crença em Deus subsiste devido ao desejo de um pai protetor e imortalidade, ou como um ópio contra a miséria e sofrimento da existência, ou seja, nos realmente criamos um Deus apenas para que pudéssemos explicar os males da humanidade: o sofrimento, a decepção, a dor, a tristeza, a maldade, a miséria e também, é claro, para que pudéssemos acreditar que haveria uma vida após a morte, seja através da reencarnação, ressuscitar ou simplesmente a vida eterna lá no céu junto ao Deus-pai. Freud chega a dizer que: “A religião é comparável a uma neurose na infância”, bem... Eu não concordaria de todo com a frase de Freud, mas a modificaria para: “a religião pode causar uma neurose na infância” visto que as religiões pressupõe conceitos e regras aos cidadãos, como já disse, colocam isso em nossas cabeças desde a mais tenra idade e isso sim pode causar algum tipo de neurose, porque se não seguimos o que dizem ser certo (e não por não querer, mas porque, como diria Freud, o instinto é mais forte) e vamos para um outro caminho isso poderia criar algum tipo de conflito na cabeça dos pequeninos: entre o ser que querem que eu seja e o que eu desejo ser. E, Freud também diz: “Um homem que está livre da religião tem uma oportunidade melhor de viver uma vida mais normal e completa”, e essa afirmação é óbvia e totalmente aceitável... Se pensarmos que se não tivermos nenhum tipo de religião e pudermos fazer o que queremos sem nos sentirmos culpados ou presos a crenças ou regras, obviamente estaríamos vivendo de forma mais livre.

Eu percebo um padrão nas religiões e mitologias, onde a maioria tem os mesmos conceitos e funções e só mudam as denominações. Todas elas tem algum tipo de racismo ou preconceito por mais que estes estejam por debaixo dos panos e palavras escritas, vejam a bíblia é considerado um livro sagrado e no entanto, eu não dou confiança alguma a ela, ela não foi escrita por um espírito santo ou mesmo por Deus, ela foi feita por homens, ou seja, não é digna de confiança pois tudo que provêm dos homens vêm impregnado de preconceitos.

Voltando ao fato de que quando os ancestrais criaram Deus, eles não tinham tecnologia e conhecimento científico fica fácil saber o porque de hoje em dia existirem muitos ateus: há tecnologia e conhecimento científico o suficiente para dar explicações a cada um dos fenômenos que acontecem na natureza. Mas, voltando á fala de Nietzsche que dizia que “Deus está morto”, eu posso dizer que: só está morto o que um dia viveu, ou seja, Deus um dia esteve presente e vivo na cabeça de Nietzsche.

E, para finalizar, um pequeno texto que resume tudo o que eu quis dizer que foi escrito por Freud (é claro): “A religião é um sistema de doutrinas e promessas que, por um lado, lhe explicam os enigmas deste mundo com perfeição invejável e que, por outro lado, lhe garantem que uma Providência cuidadosa velará por sua vida e o compensará, numa existência futura, de quaisquer frustrações que tenha experimentado aqui. O homem comum só pode imaginar essa Providência sob a figura de um pai ilimitadamente engrandecido. Apenas um ser desse tipo pode compreender as necessidades dos filhos dos homens, enternecer-se com suas preces e aplacar-se com os sinais de seu remorso"
E para refletir, deixo isso aqui:
"Alguém perguntou ao sr. K. se existe um deus. O sr. K. respondeu: “Aconselho refletir se o seu comportamento mudaria conforme a resposta a essa pergunta. Se não mudaria, podemos deixar a pergunta de lado. Se mudaria, posso lhe ser útil a ponto de dizer que você já decidiu: Você precisa de um deus. " (Bertolt Brecht, em “Histórias do Sr. Keuner)
Obs: Agora me pergunto e reflito que talvez esteja triste, porque assim como Nietzsche estou caminhando para os estudos e matando aos poucos a minha fé e crença religiosa da existência de Deus.

Um comentário:

  1. Gostei muito dos seus textos viu!
    Mas, lendo este em especial, vi-me na condição de fazer algumas colocações, ainda mais no tocante ao " matando aos poucos minha fé" dito por você.

    Vejamos: Ao analisar a fè segundo a ótica freudiana é preciso entender que, como você citou no texto, as representações do inconsciente são uma introjeção de uma moral coletiva, pois o homem entregue aos seus instintos sucumbiria. ( a concepção humana de Freud é muito próxima ao que L.Hobbes, criador das premissas do capitalismo moderno, tem de homem. Ou seja, um homem violento, egoísta e imoral por natureza.)

    Ou seja, a religião, para Freud, é a o consolo para uma existência vazia, sofredora, na qual o homem vive apenas para evitar o desprazer ( Além do principio do prazer-Freud) e todas as suas criações são sublimações para não ser massacrado pela sua natureza destrutiva e imoral.

    Contanto, para Jung, há no homem um impulso à realização. Nesta realização objetiva-se a individuação ( diferente de individualização) o que torna imperioso o religio, ou seja, a subordinação do ego aquilo que transcende, o si-mesmo, o arquétipo da realização.

    Desta forma, Jung ao estudar as religiões ( Psicologia da Religião Ocidental e Oriental) não fundamenta-se em questionamentos metafísicos. Para ele, a psique é dotada da potencialidade de criar símbolos, neste caso a imagem da divindade. A religião foi estudada empiricamente pelo citado autor que postula que há em nós um instinto religioso e a dicotomia da vida humana não está em Eros e Tanatos como Freud, mas em Eros e Poder ( Eros visto como amor e não puramente voltado a sexualidade como Freud.)

    Estou no trabalho e não tenho como entrar nas fundamentações teóricas a respeito de Marx e Nietzsche. Aliás, acho que fui raso demais nessa discussão/comparação sobre Jung e Freud mas se pudesse resumir tudo isso diria: Não perca sua Fé! Estude o ser humano e acredite sempre nas potencialidades, na realização que habita em nossa condição.
    Alias, o que seria de nós ( Psicólogos) se perdêssemos nossa fé?

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